Tuesday, November 13, 2007

A insurreição dos anjos 1


As coisas deixam-se tocar, intactas.

Monday, October 22, 2007

Posfácio

I'm not sure.

Fomes, terceira parte



Mark Rothko, a pintura


Tu désires selon le désir de l'autre, foi esse o poder das fomes brancas. Entrámos os três e subiu em mim a chuva, do quarto apagado manchas de tinta a crescer. Senta-te aí disse ele e não era eu, nas mãos da Clara a calmaria do mar. Murder ballads, sim.

Queres ver, disse-lhe ele e pensei foi de mim que tomaste as cores do sangue pois e para isso foi preciso que me visses como dezembro a tremer, foi preciso rasgar a aurora. E olhei para ela mas ela não via o vermelho impuro, gosto tanto desse disse eu devagar e queria dizer não sabes? Ele é a presa da fome e tu foste quarto cheio de coisas e tantas coisas em ti talvez a canção de inverno e ele disse-te o que aconteceu em Moscovo? Tão quietas as tuas mãos, a dança.

Sim, disse ela, e eu vi-a com os olhos dele e senti Sim, disse ela e queria dizer lembras-te? e olhava como um lago sem dor e demorou-se nele como se soubesse o lugar das cicatrizes, das marcas. Como se soubesse as palavras mortas.

Ele tremeu talvez e disse qualquer coisa e vai ouvi eu as rosas morrem.

Get down get down little Henry Lee, murmurou a fome.

Não sabes o que fazes pensei e disse coisas sobre o vermelho e a vida enquanto as coisas gritavam dos cantos e os livros aos montes eram demais e cada um dos ferros e das pedras. Frases. Agora sei pensei mas não disse isso agora sei as fendas do mundo sim, vai dizia o homem do clarinete em Moscovo vai saber porque é que parei aqui nesta fotografia rasgada que música toquei antes sem ninguém ouvir que olhar me rasgou ou achavas que não são contas que o meu filho quer ajustar? vai dizia a chaleira de cobre há qualquer coisa em mim que só pode ser entendida no frio de outubro ou? vai dizia o livro azul já te contei o deserto dos gelos e é a tua vez as garras.

Clara.

Foste tu gritei e eles não souberam foste tu que lhe deste a fome dos anjos. Vejo-te agora, calmaria do mar abismo de me não ver, vejo-te agora com os olhos dele e sei porque me quis na noite que eu tive vermelha. E sim em ti corre o segredo como sangue em poemas mortos, nada. O gesto dança nas tuas mãos e disse fala-me como se não soubesse que não era preciso. Que disseste disse ela e queria dizer ele atravessou-te mas vês eu sou opaca.


Foi há tanto tempo o tempo dos anjos mortos, era tão nova e as aulas eram o caminho de casa dela. Não há amor que não seja raspar uma porta fechada. A little pen-knife held in her hand, murmurou o mundo e eu pensei somos o desejo solto dos anjos.

Fui eu disse ela e só eu ouvi, e sim esta noite ensino-te a fome. As suas mãos calmaria do mar, as trevas.

Tuesday, October 9, 2007

Fomes, segunda parte



Mark Rothko, a pintura


Foi nesse tempo que encontrei os anjos mortos.

Saía das aulas e o caminho era a casa dele e a chuva, livros empilhados no chão as tintas. Saía de tudo, eu, e o caminho era uma coisa a chamar. Senta-te aí, disse ele, estou quase a acabar e eu ficava a ver as telas e o vermelho cada vez mais forte tu pintas o outro lado da luz. Às vezes ele falava e esquecia-se da tinta nas mãos e abria um livro ou uma maçã, às vezes ficava longe. Naquela história, disse ele, naquela história as coisas choram. Lembro-me tanto de o ouvir falar, lembro-me tanto das trevas.

Pára um bocadinho, disse eu e pensei tu nem me sentes. Tens esta casa e esta sombra e passas os dias fechado a pintar e a dormir e a ler há livros a mais aqui. Vamos tomar um café, disse eu, e queria dizer não venhas, não quero estragar a tua luta com a luz e se vieres vai dar ao mesmo, senta-te aí estou quase. Estás quase a descobrir os segredos todos e sim há fendas no mundo e rosas, vozes de negro a cantar. Ensinaste-me tantas coisas, tão pouco tempo desde a primeira vez, desde a noite do cinema e tinhas o casaco que agora está ali caído e disseste coisas sobre coisas tremendas, ensinaste-me a ver. Mas eu sou só mais uma forma das cores, estou aqui como estão aqui a máscara azul e as folhas secas e o teu gato que nunca está e a fotografia do teu pai com o clarinete, tirada em Moscovo e não disseste mais nada dele. Estou aqui porque precisas de uma porta fechada e eu faço-te uma porta fechada. Estou aqui para pintares os anjos.

Que disseste, disse ele, e nos seus olhos estava o resto da luz.

Voltámos do café, lembras-te, e à tua porta estava a Clara. É a Clara, disseste, e pensei ela já foi a porta fechada. Ela sabe o nome das rosas. Entrámos, e a chuva veio connosco, fomos ao café dizia ele e disse a sorrir estávamos com fome.

Thursday, October 4, 2007

Fomes, primeira parte


Mark Rothko, a pintura

Nas fendas do mundo há coisas vivas, disse ele, e lá fora era a chuva a um canto o sofá da primeira vez vermelho. Olhei a máscara e a fotografia do homem do clarinete, põe outra vez Cave não me apetece esta agora. Nas fendas, disse eu, nas coisas que não sabemos ver.

Não sei dizer, disse ele, na distância entre as coisas nos intervalos, nunca reparaste como as coisas estão longe, tão longe umas das outras. Pelo menos as coisas velhas, uma rua em pedra uma árvore um candeeiro de latão os livros. Uma sombra à volta que não é sombra e que eu nunca pude pintar. As cores não chegam ou não sou capaz.

Anda cá, disse eu, tenho frio e queria dizer vejo essa sombra nas tuas mãos guardei-a em mim da noite vermelha. E disse as coisas velhas sabem tanto.

Às vezes, disse ele, às vezes até o dia as horas. Não sei o que é, momentos separados como se o tempo não fosse andar. São coisas com fome, sabes, são coisas que esperam qualquer coisa nossa. Às vezes as palavras.

Manderley, disse eu e era comigo, last night I dreamt I went to Manderley again. Last night o tempo do sofá vermelho e sim, à volta das coisas coisas de fome a rondar. Sou a fome de ti, pensei, não era assim antes da noite e deste quarto e das coisas que me disseste caderno preto mãos de dançar. Palavras a tinta na tua pele.

Somos espelhos, dizia ele, espelhos quebrados e às vezes espelhos grandes dourados daqueles onde os vampiros se não sabem mostrar, as velas. À luz da vela as fomes cantam.

A tua sombra, pensei eu, a tua sombra chama as fomes neste quarto vazio cheio de coisas, há fendas no mundo sim e é a tua sombra que as abre, feridas vermelhas como as palavras de que és feito. Olha para isto, livros aos montes pelo chão e pedras e os teus desenhos e casacos pretos compridos e coisas de ferro que trazes de todo o lado. Trouxeste aqui outras antes de mim e não vos vou ver.

Sentes? dizia ele, olha aqui esta chave de ferro, e eu segurei na chave e sentia a ferrugem dos séculos tão áspera tão macias as mãos e olhei e Sentes? dizia ele, agora vê a distância não lhe consegues tocar porque era preciso sentir a porta em que ela esteve e a casa consegues ver? As mãos embrulhadas num xaile negro e não há luz um cão a uivar e a chuva e o corpo morto da mãe, a chave. Na sombra da chave as coisas vivem, assim somos nós memória e fome.

Pára, queria eu dizer, e disse ela chorou e a ferrugem dos séculos em mim tu abres-me.

A beleza, disse ele e olhou-me, ses yeux de glace étaient si purs, a beleza, e olhou-me a chuva lá fora e em mim a rosa, sim, pensei, agora.

A beleza do mundo, disse ele, é grito das coisas com fome.

Tuesday, October 2, 2007

Désir



Foi tão difícil aprender a sujar-me.

Tuesday, September 18, 2007

Vampirica


Não é isso disse eu e calei-me não podia dizer em ti há seda azul por rasgar e uma inocência feita de ossos. Não podia dizer a fome.

(olhaste como se não tivesses escutado)

Eu podia disse eu e calei-me outra vez não podia dizer salva-te porque ainda tens passos a dar e se ficasses ias saber o fundo em mim não há canções. A infinita leveza dos teus pés.

(à nossa frente o rio e talvez tenha sido isso, os rios são fundos e não nos lembramos)

Estou nas tuas mãos disseste confio em ti.

Sabes disse eu és tão bonita e quis mudar as palavras mas disse não devias confiar e se agora sorrir vais-me beijar pensei não posso sorrir. Ainda vamos a tempo e disse não sabes o que estás a dizer

(olhaste e fizeste um gesto não é verdade)

Às vezes pareces tão triste disseste como se não conseguisses dizer as coisas a mim podes falar

Não são as palavras disse eu e calei-me não podia dizer é a noite e o sabor da noite brusca dos corpos. Não podia dizer a vida. Vou-te contar disse eu mas calei-me não podia dizer há rios sob a tua pele tão branca e as rosas cantam e todos os milagres são roxos a seda faz-me rasgar.

(olhaste e a inocência mais funda do que todos os rios)

Amo-te disse eu e inclinei-me.

Rosas bruscas fome azul, o rio: infinita exultação das asas mortas.

Thursday, September 13, 2007

Tangerinas

E finalmente ela disse sabes, na minha casa houve rosas.

Lembrei-me da véspera noite de lobas e lua e disse as casas, nem sempre as casas são lugar de dormir. Lembrei-me do cheiro das velas.

Houve rosas disse ela como se estivesse a aprender, houve na minha casa tantas coisas.

Sim disse eu mas vê as rosas morrem. Hoje a tua casa é a coutada das lobas e a barca da rainha lua e é tudo o que quiseres e já não tens a janela pois não? A janela aos quadrados brancos por onde passavas para o teu pai não saber. Quando o teu vestido se prendia nas rosas e aprendia a morrer.

Não faças isso disse ela não me prendas como se prendia o meu vestido azul, como se abria a janela dos quadrados brancos. Quero degraus de pedra para me sentar.

Nos teus ombros há palavras bárbaras pensei, nos pés os traços das rosas mortas. Sabes disse eu não te quero dizer tudo nunca vais saber muitas coisas de mim mas vê as pedras mentem. Hoje a tua casa é a noite à volta e esta chuva tão breve e se quiseres sento-me contigo. Se quiseres vamos ao fim.

Tenho uma história disse ela mas foi como se tivesse frio e as palavras eram baixinho, tenho uma história de pés a sangrar. Estou tão cansada as lobas.

Vamos disse eu e pensei quero ler as palavras bárbaras quero saber porque me lembras as tangerinas. Vamos disse eu baixinho, ensino-te a adormecer as rosas e a deixar a lua prender os teus degraus de pedra gasta, vamos.

Escrevo e lembro-me do cheiro das velas, da noite inteira das tangerinas.

Saturday, June 23, 2007

Tanto

Na noite funda o anjo escreve tanto.

Mãe, que me não falaste dos anjos, que me escondeste a assombração do mundo como se fosse possível, como se bastasse dares-me aquele quarto de almofadas azuis. Sabes, eu ficava acordada, tanto.

Tanta noite. Tanto rasgar. Lobos e fêmeas e passos e coisas escritas nos livros das prateleiras altas, e era tão longe a casa e era tão fria. Era tão perto a dança dos fantasmas velhos.

Na noite funda o anjo escreve agora. E no meu ventre a dança morta.

Thursday, June 7, 2007

no rosto de deus as marcas

"O que há nesse lado de lá (que é sempre dentro) são fadas que são bruxas que são raparigas ruivas a entrançar os cabelos que são raparigas morenas de cabelo curto que andam de longos vestidos e descalças que andam de jeans e sandálias que usam velhas pedras que usam pérolas que são deuses que são demónios que são rapazes louros sem marcas no rosto que são homens grisalhos com marcas no rosto que são Rainhas dos Infernos que são o Rosto de Deus. Todos tem um e um em todos"

Alexandra Lucas Coelho, sobre os livros de Ana Teresa Pereira.

Nunca gostei de fadas e nunca fui uma rapariga ruiva. Mas gosto de pedras e marcas no rosto e gatos e telhados e rainhas e cerejas e da relva depois da meia-noite. Gosto de palavras ditas baixinho e dos gritos que ficam dentro. Gosto de pessoas que têm em si pássaros mortos e rosas fechadas. Gosto do cheiro do mar. Gosto de botas e de sandálias e de anéis prateados e de anéis que poderiam ter sido de princesas no exílio ou de cavaleiros em desgraça. Gosto de músicas feitas de vozes e pântanos e orações dos demónios. Gosto de livros que alguém comprou e leu e que já ninguém compra e ninguém lê. Gosto do meu candeeiro verde e da janela aberta e das escadas de madeira que rangem e da porta grande que às vezes o vento acorda. Gosto da toalha de linho que me deu a minha avó francesa. Gosto de chegar a casa e reparar que tenho os pés feridos de areia e terra e água e luz. Gosto de algumas frases em línguas que não conheço. Gosto dos sinos de Saint Vincent des Aulnes, das árvores grandes de Fronzenac. Gosto de comboios e bicicletas e da semana a seguir à Páscoa. Gosto de ver o primeiro beijo nos outros. Gosto de caves e telhados velhos, de vinho bebido sem horas e de ser a primeira a acordar. Gosto de pensar que podia ter sido um marinheiro cego ou a senhora dos lobos ou uma chilena chamada Rosario. Gosto de igrejas vazias e de clareiras pagãs. Gosto dos deuses que já ninguém quer. Gosto do toque inconfundível do pão. Gosto de todas as distâncias de todos os ritos de todos os céus. Gosto de anjos a estremecer, gosto do corpo dos anjos.