Amor da floresta, que me ensinou a ligeireza da dança.
Amor da árvore, que me ensinou a presença inteira.
Amor do ramo, que me ensinou a sustentação dos pássaros.
Amor da folha, que me ensinou a elevação dos mundos.
Amor da pedra, que me ensinou a linguagem do deus.
Floresta, em nós se não distinguem o corpo e a alma. Inconstância da luz! Por longo tempo me contive nos caminhos únicos. Raízes na profundeza dos céus, ramagens de desejo puro, domínio das águias chamadas loucura! Em baixo, na cidade do pó, chamaram-me a Peregrina. E percorro-te na noite em busca de outra Noite.
Deixamos para trás o deus dos rebanhos áridos.
6 comments:
Eu diria que o corpo e a alma se distinguem mas que são dados numa unidade. Ou que o corpo é a situação da alma, ou esta a voz que enuncia o corpo. Mas enfim, isso seria fazer uma daquelas insuportáveis notas de rodapé num poema ;)
Não são insuportáveis, pelo contrário. Mas essa é uma heresia tua, não é?
Porque há uma distinção que é esta: a alma é imortal, o corpo apensa ressuscitável.
O que me faz pensar se a tua definição não se aplicará, por outro lado, e perfeitamente, a Jesus Cristo.
Ah… depende. Há quem dissesse que heresia consiste precisamente na separação existencial e valorativa de ambos, como aliás se indicia na tua última frase. Porque um corpo sem alma não é corpo humano (só há humanidade em corpos vividos) e uma alma sem corpo não se situa e define, ou seja, não tem a singularidade que constitui um eu (seja esse corpo o inconhecível corpo espiritual da ressurreição ou o nosso corpo de morte).
Claro que tudo isto depende das noções subjacentes às palavras. Mas heresia gnóstica ou paganismo órfico ou platónico, é pensar-se na alma como estranha e até contrária ao corpo enquanto tal ;)
È por acto da alma (decisão) que o corpo vivido se instaurou contra a sua própria vida (com o pecado do primeiro homem entrou a morte no mundo, diz o apóstolo dos ímpios).
E vem-me à pinha : só Deus mantém a sua identidade sem limitar-se e situar-se.
Mas é muito difícil falar-se destas coisas.
Intrigas-me, Vitor. Não há singularidade nos santos?
"hoje mesmo estarás comigo". Estarás "tu", ou estará uma alma impessoal a aguardar o recentrar (?) do corpo?
Mas nota que nunca falei de "contrariedade" ou "oposição". Tenho horror aos que abominam o corpo. E aos que o profanam.
Há, e não só nos santos... Mas a sua singularidade dá-se essencialmente na abertura, nos modos de relação, e não numa substãncia identitária fixa e fechada. É santo, ou inspirado, enquanto diálogo - presença de si para outrém - como a Trindade ;)
A santidade dá-se nas consubstancialidades, se preferires.
E claro que há distinções sem oposições. O que eu quis dizer foi que o corpo remete mais para a situação existencial, de ter limites temporais, espaciais e ontológicos (eu não vivo nem me vivo enquanto formiga nem anjo) do que uma fisicalidade imediata em que estar vivo ou morto não faz diferença na definição. E que esses limites são determinações do que sou (e portanto, também da alma, de algum modo...)
Mas está certo... Estas coisas são para mim um pouco intrigantes... Têm um fio da navalha, um milímetro para qualquer lado e lá se perde o fio e o equilíbrio...
no último comentário eu falava dos santos da igreja triunfante. Mas pensando bem, talvez se liguem, mesmo antes do "fim" - e uma vez que a temporaliade lhes está abolida - ao seu (do nosso ponto de vista) futuro corpo de glória.
Porque lendo as tuas palavras à letra (e como almas sem corpo, ou entre dois corpos...) não poderiam ter essa individualidade.
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