Monday, April 30, 2007

Meditação sobre os (ex)pulsos

Ontem à noite no P., "música para cortar os pulsos" dizia o cartaz (que sabem eles?). Felizmente pouca gente conhecida, beber fumar olhar quem chega não ver ninguém. Deixar. Gosto das luzes vermelhas, as sombras no canto, a imensa garrafa da entrada, "Bombay Sapphire". Azul líquido: a cor que o sangue devia ter.

Junto-me às outras num shot. Estou bem ali e estou a mais. As always. Sorrio para a J., duas frases um gesto inteiro. Talvez (tu sabes tão bem as minhas mãos). Junto-me às outras como se me não lembrassem quem somos.

É noite e a música não corta os pulsos a ninguém, olho à volta os corpos entregues. À sombra da luz vermelha ovelhas negras cantam os seus cantos de raiva e espuma, os seus inúteis cantos de amarelo ou rosa. Cores coloridas sem alma, feitas tanto de coisa nenhuma. À sombra da luz vermelha o corpo abraça. Tão só.

Tão linda a A. com o seu turbante verde.

É noite sim, há tanto tempo é noite. Não há memória do dia claro de antes dos mundos, não há memória dele que não seja o sangue a correr, o olhar esguio e puro do desejo insaciável. E por isso nas sombras do meu canto fico quieta a olhar a fome dos olhos. A sede das mãos.

É noite e vou beber hoje e cantar para ti, ovelha negra. Eu a sem-cor. Eu a sem-luz. Eu a sem-doçura. Ovelha negra fingida-de-cores, tinges-te agora de riso como se os anjos não te importassem. Como se as almas não te importassem. Fazes bem em fingir, ovelha negra, dança e ri e abraça e clama pelo relâmpago dos corpos. Abriga-te nas sombras do amarelo e do rosa e das flores, no tédio do Bombay Sapphire azul líquido. Dança e finge e corre, ovelha negra, lobo-de-ti. Por mais que corras corre mais o sangue, escorre mais o álcool: não há caminhos-de sossegar. Não há casa que seja a tua casa. A noite venceu, salta de alegria sobre o abismo do mundo. E esta noite faço-me igual, eu que sou o inverno e o longe: canto e bebo e vejo e rezo por dentro ao deus-pastor. Também ele finge na noite, finge que não é o senhor dos lobos e das árvores de enforcar, finge que não está, que não sabe, que não ouve. E eu rezo ao meu deus-de-fingir. Ao meu deus-de-ninguém.

Expulsos do lugar das vidas mortas, ovelhas negras. Bombay Sapphire, almas líquidas, vou ter convosco à noite dos corpos. Impulsos.

Ovelhas negras que não têm pulsos para cortar.

1 comments:

A estranha said...

Adorei este teu texto. Viajei para dentro dele..

Parabéns pelo excelente blog.