O mal não tem uma essência própria, diz a Igreja: nada mais é do que a privação do Bem. Todo o Ser vem de Deus.
Mas falta-nos - hoje - uma cosmologia da manifestação do Mal. Os católicos estão envenenados de psicologia e de sentimentalismo: correm apressados a ver no Mal o errozinho, a duvidazinha, a pequeníssima natureza humana. Como se o Mal fosse apenas uma gripe da razão.
Antes do Sangue e da Água que correram do golpe da Lança, quem primeiro tocou a Terra foi o suor de Jesus Cristo - o suor transformado em Sangue na Noite abissal do monte das Oliveiras. "Comereis o pão com o suor do rosto", tinha sido dito. E agora o Filho fez, por seu turno, crescer não sabemos que Pão com o Suor do homem Encarnado. (Ao seu lado confortava-o um Anjo, que eu imagino poder ter sido Melchisedech, o sacerdote).
E ao receber o suor, a Terra começou a libertar-se, antes ainda de ter sido libertada a humanidade.
O que germinou nessa noite, nas profundezas da Terra?
Estou tão só.
7 comments:
hellena corvo, a tua escrita é-me estranhamente familiar.
li a parte do comentário que me era destinada,no blog do Lord of Erewhon e, não querendo abusar da caixa de comentários do nosso "hóspede", deixei-te por lá um pedido.
abraço
Respondo aqui também, aquilária, para não cruzar conversas. Terei errado? Curiosamente (?) tinha acabado de escrever este post (sobre o Mal) e fui visitar Lord of Erewhon, que me visitara há uns dias. Admiti que estivesses a dar uma interpretação - digamos assim - subjectiva das "visões" de Lovecraft: e algo no aliás belíssimo poema do post aponta para aí. O medo incrustrado na nossa alma, sabe deus porquê ou para quê, e um medo que gera os seus próprios monstros.
Se a primeira parte é parcialmente verdadeira - o medo, como a verdade, são directamente alcançados sem a intermediação do raciocínio - a segunda não o é. O medo, a inominável e abissal angústia diante da treva informe, não gera a Treva. E por essa razão não interessa.
Não, o medo nao desperta monstros adormecidos: só os anjos adormecem, se assim me posso exprimir. Os monstros nunca adormecem, e também por isso são mais temíveis. Rondam, aguardam, pressentem. E nestes tempos que vivemos, aproximam-se (e essa foi a profundíssima intuição de Lovecraft: a aproximação cósmica de uma abominação, no Espaço como no Tempo.
Mas na verdade posso ter sonhado, e o teu comentário a Lord Erewhon ter um contexto diverso. Perdoarás se assim tiver sido.
abraço outro (a familiaridade da escrita está certamente no leitor)
hellena,
pois, as curiosas coincidências, os fios invísiveis a tecerem as suas ligações....
referia-me, é óbvio, a lovecraft, e concretamente ao "monstro com cabeça de lula", que se encontra em estado de torpor.
mas, contrariamente ao que talvez tenha dado a entender, não creio que o medo gere a Treva. o medo desperta a memória.
Aquilária, creio que por vezes o medo oculta a memória. Substitui-a por uma recordação "soft", aceitável, apresentável, limpa.
Uma experiência bem interessante é escutar pessoas que tenham tido uma experiência inabitual (ovnis, aparições) pouco tempo a seguir ao momento crucial e, por exemplo, cinco anos depois.
Tanto quanto me tenho apercebido, já as memórias de "acidente" se mantém...
Et oui.
Embora seja histórica e linguisticamente mais claro dizer que o mal não tem substância, ou se preferirmos, que lhe sub-está sempre um bem. Seria mal do quê, senão ? É a tese agostiniana que se formulou depois escolasticamente dizendo que o mal é um acidente, uma ocorrência (melhor seria dizer, uma des-ocorrência ;) em algo.
O mal absoluto (que culminaria na negação da determinação mínima de algo, que é « ser qualquer coisa ») corresponde à inexistência, ao nada – e portanto não é.
Mas o mistério da desvitalização a que o mal preside (e nesse sentido, ao mundo decaído em que existimos) e a sua relação com Deus é… doloroso. E a morte é a interrogação máxima que nos pode ser feita perante essa desvitalização (este mundo inteiro é um corpo de morte). Que a vida na sua tensão máxima se constitui como uma resposta à morte (tenha a pessoa ou não consciência de tal, e aqui o famoso ditado « quem cala consente » ganha contornos terríveis) é algo que escapa evidentemente ao « naturalismo » que vem grassando num certo cristianismo (isto é, nalgum recanto da alma de cada um dos cristãos ;)
E tanto mais.
Abraço, Hellena
PS: Mas o amor cobre a multitude dos pecados.
vitor mácula, essa questão interessa-me muito. Muito mesmo.
Não tanto no no seu "reflexo" pessoal (o tal recanto da alma, e coisas assim, que deixo aos católicos) mas na sua essência/substância própria, por assim dizer. Em termos religiosos, diria que me interessa mais o diabo do que o pecado :)
há um silêncio enorme sobre isso (não falo dos textos propriamente satanicos - e satanizantes - que abundam, mais ou menos disfarçados).
Quando era pequena li uma história do Superman em que ele tinha de enfrentar um líquido que um monstro ia derramar na Terra e que dissolvia absolutamente tudo em que tocasse - nenhum recipiente era possível. Um centro de não-Ser, portanto. Ou um maelstrom, como dizia o Lovecraft. Um abismo que, não tendo uma "substância", se fez no entanto uma pessoa (et pour cause...)
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