Sunday, April 8, 2007

O Mal

O mal não tem uma essência própria, diz a Igreja: nada mais é do que a privação do Bem. Todo o Ser vem de Deus.

Mas falta-nos - hoje - uma cosmologia da manifestação do Mal. Os católicos estão envenenados de psicologia e de sentimentalismo: correm apressados a ver no Mal o errozinho, a duvidazinha, a pequeníssima natureza humana. Como se o Mal fosse apenas uma gripe da razão.

Antes do Sangue e da Água que correram do golpe da Lança, quem primeiro tocou a Terra foi o suor de Jesus Cristo - o suor transformado em Sangue na Noite abissal do monte das Oliveiras. "Comereis o pão com o suor do rosto", tinha sido dito. E agora o Filho fez, por seu turno, crescer não sabemos que Pão com o Suor do homem Encarnado. (Ao seu lado confortava-o um Anjo, que eu imagino poder ter sido Melchisedech, o sacerdote).

E ao receber o suor, a Terra começou a libertar-se, antes ainda de ter sido libertada a humanidade.

O que germinou nessa noite, nas profundezas da Terra?

Estou tão só.

7 comments:

aquilária said...

hellena corvo, a tua escrita é-me estranhamente familiar.

li a parte do comentário que me era destinada,no blog do Lord of Erewhon e, não querendo abusar da caixa de comentários do nosso "hóspede", deixei-te por lá um pedido.

abraço

hellena corvo said...

Respondo aqui também, aquilária, para não cruzar conversas. Terei errado? Curiosamente (?) tinha acabado de escrever este post (sobre o Mal) e fui visitar Lord of Erewhon, que me visitara há uns dias. Admiti que estivesses a dar uma interpretação - digamos assim - subjectiva das "visões" de Lovecraft: e algo no aliás belíssimo poema do post aponta para aí. O medo incrustrado na nossa alma, sabe deus porquê ou para quê, e um medo que gera os seus próprios monstros.

Se a primeira parte é parcialmente verdadeira - o medo, como a verdade, são directamente alcançados sem a intermediação do raciocínio - a segunda não o é. O medo, a inominável e abissal angústia diante da treva informe, não gera a Treva. E por essa razão não interessa.

Não, o medo nao desperta monstros adormecidos: só os anjos adormecem, se assim me posso exprimir. Os monstros nunca adormecem, e também por isso são mais temíveis. Rondam, aguardam, pressentem. E nestes tempos que vivemos, aproximam-se (e essa foi a profundíssima intuição de Lovecraft: a aproximação cósmica de uma abominação, no Espaço como no Tempo.

Mas na verdade posso ter sonhado, e o teu comentário a Lord Erewhon ter um contexto diverso. Perdoarás se assim tiver sido.

abraço outro (a familiaridade da escrita está certamente no leitor)

aquilária said...

hellena,
pois, as curiosas coincidências, os fios invísiveis a tecerem as suas ligações....

referia-me, é óbvio, a lovecraft, e concretamente ao "monstro com cabeça de lula", que se encontra em estado de torpor.

mas, contrariamente ao que talvez tenha dado a entender, não creio que o medo gere a Treva. o medo desperta a memória.

hellena corvo said...

Aquilária, creio que por vezes o medo oculta a memória. Substitui-a por uma recordação "soft", aceitável, apresentável, limpa.

Uma experiência bem interessante é escutar pessoas que tenham tido uma experiência inabitual (ovnis, aparições) pouco tempo a seguir ao momento crucial e, por exemplo, cinco anos depois.

Tanto quanto me tenho apercebido, já as memórias de "acidente" se mantém...

Vítor Mácula said...

Et oui.

Embora seja histórica e linguisticamente mais claro dizer que o mal não tem substância, ou se preferirmos, que lhe sub-está sempre um bem. Seria mal do quê, senão ? É a tese agostiniana que se formulou depois escolasticamente dizendo que o mal é um acidente, uma ocorrência (melhor seria dizer, uma des-ocorrência ;) em algo.

O mal absoluto (que culminaria na negação da determinação mínima de algo, que é « ser qualquer coisa ») corresponde à inexistência, ao nada – e portanto não é.

Mas o mistério da desvitalização a que o mal preside (e nesse sentido, ao mundo decaído em que existimos) e a sua relação com Deus é… doloroso. E a morte é a interrogação máxima que nos pode ser feita perante essa desvitalização (este mundo inteiro é um corpo de morte). Que a vida na sua tensão máxima se constitui como uma resposta à morte (tenha a pessoa ou não consciência de tal, e aqui o famoso ditado « quem cala consente » ganha contornos terríveis) é algo que escapa evidentemente ao « naturalismo » que vem grassando num certo cristianismo (isto é, nalgum recanto da alma de cada um dos cristãos ;)

E tanto mais.

Abraço, Hellena

Vítor Mácula said...

PS: Mas o amor cobre a multitude dos pecados.

hellena corvo said...

vitor mácula, essa questão interessa-me muito. Muito mesmo.

Não tanto no no seu "reflexo" pessoal (o tal recanto da alma, e coisas assim, que deixo aos católicos) mas na sua essência/substância própria, por assim dizer. Em termos religiosos, diria que me interessa mais o diabo do que o pecado :)

há um silêncio enorme sobre isso (não falo dos textos propriamente satanicos - e satanizantes - que abundam, mais ou menos disfarçados).

Quando era pequena li uma história do Superman em que ele tinha de enfrentar um líquido que um monstro ia derramar na Terra e que dissolvia absolutamente tudo em que tocasse - nenhum recipiente era possível. Um centro de não-Ser, portanto. Ou um maelstrom, como dizia o Lovecraft. Um abismo que, não tendo uma "substância", se fez no entanto uma pessoa (et pour cause...)