Tuesday, April 17, 2007

Os Cantos

O que escrevo são garrafas no mar, o que deixo por dizer traz em si o peso dos dias. Amigos, aliados, anjos, sombras de além-sentir: já nenhum caminho nos leva a Roma, nenhum esperar nos é possível.

Passei a noite na praia de C.

Não sei bem o que faço aqui. Não gosto de diários, não gosto de proclamações, não gosto de pessoas. Tenho os livros e a minha gata e a música e é fácil beber demais, rezar demais, dormir. É fácil a tentação da lua. Dead Can Dance.

É tarde e estou a beber. Gosto de estar aqui, paredes brancas luz negra. Este quarto assombrado-de-mim. As árvores lá fora cantam-me baixinho: hellena.
Hellena.

Lembrei-me da máquina que inventaram, os ultra-sons que só os mais novos ouvem, a arma "anti-putos" sonho dos professores e dos chuis. Aos 30 anos deixam de ouvir o que quer que seja. Talvez haja demónios que só alguns vejam, sombras que já só eu reconheça, coisas que não deviam ter entrado no mundo. Talvez tenha feito mal em não ter morrido na primeira vez.

Olho assombrada as minhas mãos vazias...

2 comments:

Vítor Mácula said...

Bolas, Hellena, ninguém sabe o que faz aqui, ou acoli… E então ?... É talvez por aí… Aquela que não se sabe realiza a interrogação vital… Há-de sofrer, sim… E então ?... Pois também a ilusão e a fuga conduzem à dor, mas pensando que sabiam, que algo uniam.

Deus ? Tão longe tão perto, como dizia o filme lá do Wenders… E então ?...

Não sei.

Morre-se sempre de cada vez. Seja lá do que fôr. Que fazer ?... Nós vivemos morrendo-nos (todos os pequenos instantes, bons ou maus, que se esvaem…) Até a felicidade mata, no fundo dos fundos onde nada retemos.

Mas esse não poder, esse não saber, esse desajuste – é possibilidade de outra coisa. Significa aliás, que a alma (seja lá o que entendermos por tal) é maior que a vida, é mais intensa que o tempo.

Já é qualquer coisa, carago ! ;)

Abraço

PS : Não sei se não abusei na expressão…

hellena corvo said...

Só o nada é abusador, Vítor.