Mesmo os que não temos formação científica nos habituámos à ideia de que as coisas não são divisíveis até ao infinito: há os átomos, e para além deles entramos num mundo fascinante, caótico e - excepto pela matemática - incompreensível.
Mas quando falamos de comportamentos pessoais, ou de acontecimentos da História - o assassinato de Kennedy, as razões da zanga entre X e Y - tendemos a aceitar, ser pensar muito nisso, que o observador atento poderia encontrar a sua explicação definitiva, completa, irrefutável: poderia encontrar uma descrição verdadeira, completa e coerente dos factos.
Não penso que isso seja possível. Aprofundando suficientemente uma história qualquer - a minha, a de Kennedy, a das aparições de Fátima, qualquer uma - chegamos também a uma fronteira semelhante à dos átomos: para além dela, passamos a ter só uma história coerente mas incompleta ou - o que é muito mais interessante - uma história completa mas incoerente.
E não temos, nestes casos, matemática que nos ajude.
5 comments:
Não, mas temos o saber narrativo das estórias à fogueira ao ritmo linguístico das encantações, da poesia ao romance contemporâneo… que desde tempos imemoriais ecoam sentidos e paradoxologias.
Ouvi dizer que há também qualquer coisa nas religiões… ;)
Abraço, Hellena
PS: É assim tão claro que a matemática não nos ajude na aferição de projectores e abanões?...
São coisas muito diferentes! Dar sentido a uma história não é explicá-la. Interpretar sonhos não ajuda a entender como fazer para amanhã sonhar com a Pantera Cor de Rosa em vez de outra coisa qualquer.
A matemática dos projectores... chama-se programação a isso. É exactamente a especialidade do Jacques Vallée. Fica para uma próxima especulação.
Huuuum... as palavras… confusas notas que hoje não me apetece pensar ;)
Bem, explicar, muitas vezes, corresponde a substituir, ou melhor, pôr em paralelo, uma hipótese de algo perante a apresentação directa desse algo (uma estrutura de átomos em movimento e a cadeira onde estou sentado, por exemplo). A pretensão de verdade de tal actividade é sempre uma estória comprida.
Na ciência moderna, explicar será fazer corresponder um modelo conceptual ou matemático. O sentido de tal, que não está explícito nos métodos, tem que ver com as condições de verdade, e valor ou área desta. Seja como for, reduzir a actividade explicativa a métodos X ou Y… e às suas áreas… A explicação mitológica, por exemplo, não se refere a como o facto directo se constitui (preocupação da ciência) mas às finalidades e orientações do humanos na sua relação consigo próprio, com os outros e com a série de factos possíveis da vida e do mundo. Reduzir a aplicação da matemática a determinado método também não é líquido...
Quanto aos sonhos, parece que é mais fácil dirigi-los do que os electrões... ;)
O facto do sentido tecnológico estar fundado na manipulação do mundo (essa é a sua ligação com a magia;) não sei se lhe garante valor maior de explicação. A verificabilidade é uma aferição muito frágil, pois nunca é neutra mas dada em condições teóricas e práticas prévias. Isto não lhe retira nada a não ser apodigticidade, o que, ao contrário do que possa parecer, só é grave para quem requer uma autoridade extra-pessoal para se orientar (seja o verificacionismo, a razão ou o tio Francisco que sabe tudo, para o caso não conta, para o caso quer-se dizer: para o céptico ;)
Também nem toda a explicação implica domínio sobre o que se explica.
A noção de programação… percebo. Mantém-se o problema de se referir a uma programação universal ou regional. Para além da interrogação acerca do(s) programador(es) ou ausência destes separados da programação (coisas que se causam a si próprias e afins).
Enfim, tantos enfins… pelo menos hoje ;)
Bom dia, Hellena
Mas a maior parte das narrativas são histórias de adormecer. E a mim interessam as histórias de acordar.
E não houve "manipulação do mundo", por exemplo, na consagração da Rússia ao imaculado coração?
Sim. Mas por vezes o beijo do príncipe só vem se adormecermos.
Não sei muito bem como foi essa consagração. Mas sei que na política vaticana relativamente ao comunismo há um ror de "manipulação do mundo".
E a cultura russa, não precisa de lições de espiritualidade cristã.
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