Monday, May 21, 2007

Eu

Na mesa ao lado luz sombra e depois olhei os pulsos, a fragmentada solidão das mãos. Na mesa ao lado abri distâncias de mim, sulcos de água num glaciar. Fala-me, pensei, fala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é cedo. Anda um gesto no teu veludo negro, nas tuas sedas tão tristes. Andam palavras em ti que eu quero ter.

Tem cuidado com a água, disse a luz das tuas veias na pele. A noite chama para sermos iguais a ela, dançar o cansaço chamado vida. Não me olhes na mesa ao lado, daqui a pouco hei-de ir e hei-de ser mais uma nas trevas, mais uma luz a dançar. Tem cuidado os sulcos vão-te perder.

Eu saberei onde andas, pensei, se dançares vai-me bastar fechar os olhos, sei.

Não me quero rasgar.

Na noite à volta luz sombra e agora a música em fogo, a insaciável solidão do fogo. Na noite à volta deixo-me arder. Noite, rezei, faz em mim uma noite igual, faz em mim rios de fogo a dançar. Bebo de ti como se bebesse a vida roubada, como se beijasse os pulsos tão leves. Beijo na noite aquela que eu queria ser.

Já não me lembro e toquei o veludo negro, toquei as sedas mas já não sei. Veias de lava na pele, palavras. Rosas soltas de imacular.

Não te quero rasgar.

No corpo ao lado luz sombra e depois viste-me os olhos, a emagrecida solidão dos olhos. No corpo à volta abri o abismo de nós. Cala-me, pensei, cala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é tarde. Agora sei as veias na pele, sei o sabor do teu veludo negro. Sabes o que faz o gelo sangrar.

2 comments:

Cigarettes & Vinyl said...
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Cigarettes & Vinyl said...

As mãos. A cortante solidão das mãos vazias...
Deixa-te rasgar. A solidão é um brinquedo na mão de quem a carrega.