Tuesday, May 22, 2007

Ávila

Tenho uma câmara a fazer de alma, um microscópio no lugar do coração. Em mim há só o que os meus olhos sabem: céus cinzentos e um gato, uma chávena de café no Outono, os muros do convento de San José em Ávila. Sou para mim uma imagem minha, coisa múltipla em fuga esboçada a lápis. Na rigorosa sucessão das horas, tufão disperso nos mares do tempo.

Faço-me inteira pelo amor, dissipação da bruma. Consciência marítima das ondas, tão diferente da insurreição da pedra! Faço-me no amor como mar em molhe de Inverno, cada onda anseia a livre condição de chuva, cada onda a bater sabe-se mar. E alargas-te ao receber-me como se fosses o mundo, a complexíssima enraização do mundo.

Microscópio no lugar do coração, sei de ti coisas que o dia não conta. Na tua pele cada marca da pedra em Ávila.

0 comments: