Thursday, September 13, 2007

Tangerinas

E finalmente ela disse sabes, na minha casa houve rosas.

Lembrei-me da véspera noite de lobas e lua e disse as casas, nem sempre as casas são lugar de dormir. Lembrei-me do cheiro das velas.

Houve rosas disse ela como se estivesse a aprender, houve na minha casa tantas coisas.

Sim disse eu mas vê as rosas morrem. Hoje a tua casa é a coutada das lobas e a barca da rainha lua e é tudo o que quiseres e já não tens a janela pois não? A janela aos quadrados brancos por onde passavas para o teu pai não saber. Quando o teu vestido se prendia nas rosas e aprendia a morrer.

Não faças isso disse ela não me prendas como se prendia o meu vestido azul, como se abria a janela dos quadrados brancos. Quero degraus de pedra para me sentar.

Nos teus ombros há palavras bárbaras pensei, nos pés os traços das rosas mortas. Sabes disse eu não te quero dizer tudo nunca vais saber muitas coisas de mim mas vê as pedras mentem. Hoje a tua casa é a noite à volta e esta chuva tão breve e se quiseres sento-me contigo. Se quiseres vamos ao fim.

Tenho uma história disse ela mas foi como se tivesse frio e as palavras eram baixinho, tenho uma história de pés a sangrar. Estou tão cansada as lobas.

Vamos disse eu e pensei quero ler as palavras bárbaras quero saber porque me lembras as tangerinas. Vamos disse eu baixinho, ensino-te a adormecer as rosas e a deixar a lua prender os teus degraus de pedra gasta, vamos.

Escrevo e lembro-me do cheiro das velas, da noite inteira das tangerinas.

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