Tuesday, September 18, 2007

Vampirica


Não é isso disse eu e calei-me não podia dizer em ti há seda azul por rasgar e uma inocência feita de ossos. Não podia dizer a fome.

(olhaste como se não tivesses escutado)

Eu podia disse eu e calei-me outra vez não podia dizer salva-te porque ainda tens passos a dar e se ficasses ias saber o fundo em mim não há canções. A infinita leveza dos teus pés.

(à nossa frente o rio e talvez tenha sido isso, os rios são fundos e não nos lembramos)

Estou nas tuas mãos disseste confio em ti.

Sabes disse eu és tão bonita e quis mudar as palavras mas disse não devias confiar e se agora sorrir vais-me beijar pensei não posso sorrir. Ainda vamos a tempo e disse não sabes o que estás a dizer

(olhaste e fizeste um gesto não é verdade)

Às vezes pareces tão triste disseste como se não conseguisses dizer as coisas a mim podes falar

Não são as palavras disse eu e calei-me não podia dizer é a noite e o sabor da noite brusca dos corpos. Não podia dizer a vida. Vou-te contar disse eu mas calei-me não podia dizer há rios sob a tua pele tão branca e as rosas cantam e todos os milagres são roxos a seda faz-me rasgar.

(olhaste e a inocência mais funda do que todos os rios)

Amo-te disse eu e inclinei-me.

Rosas bruscas fome azul, o rio: infinita exultação das asas mortas.

1 comments:

Cigarettes & Vinyl said...

Comoveu-me a passagem, em particular "em ti há seda azul por rasgar e uma inocência feita de ossos."
Benvinda de volta à escrita.