
Mark Rothko, a pintura
Nas fendas do mundo há coisas vivas, disse ele, e lá fora era a chuva a um canto o sofá da primeira vez vermelho. Olhei a máscara e a fotografia do homem do clarinete, põe outra vez Cave não me apetece esta agora. Nas fendas, disse eu, nas coisas que não sabemos ver.
Não sei dizer, disse ele, na distância entre as coisas nos intervalos, nunca reparaste como as coisas estão longe, tão longe umas das outras. Pelo menos as coisas velhas, uma rua em pedra uma árvore um candeeiro de latão os livros. Uma sombra à volta que não é sombra e que eu nunca pude pintar. As cores não chegam ou não sou capaz.
Anda cá, disse eu, tenho frio e queria dizer vejo essa sombra nas tuas mãos guardei-a em mim da noite vermelha. E disse as coisas velhas sabem tanto.
Às vezes, disse ele, às vezes até o dia as horas. Não sei o que é, momentos separados como se o tempo não fosse andar. São coisas com fome, sabes, são coisas que esperam qualquer coisa nossa. Às vezes as palavras.
Manderley, disse eu e era comigo, last night I dreamt I went to Manderley again. Last night o tempo do sofá vermelho e sim, à volta das coisas coisas de fome a rondar. Sou a fome de ti, pensei, não era assim antes da noite e deste quarto e das coisas que me disseste caderno preto mãos de dançar. Palavras a tinta na tua pele.
Somos espelhos, dizia ele, espelhos quebrados e às vezes espelhos grandes dourados daqueles onde os vampiros se não sabem mostrar, as velas. À luz da vela as fomes cantam.
A tua sombra, pensei eu, a tua sombra chama as fomes neste quarto vazio cheio de coisas, há fendas no mundo sim e é a tua sombra que as abre, feridas vermelhas como as palavras de que és feito. Olha para isto, livros aos montes pelo chão e pedras e os teus desenhos e casacos pretos compridos e coisas de ferro que trazes de todo o lado. Trouxeste aqui outras antes de mim e não vos vou ver.
Sentes? dizia ele, olha aqui esta chave de ferro, e eu segurei na chave e sentia a ferrugem dos séculos tão áspera tão macias as mãos e olhei e Sentes? dizia ele, agora vê a distância não lhe consegues tocar porque era preciso sentir a porta em que ela esteve e a casa consegues ver? As mãos embrulhadas num xaile negro e não há luz um cão a uivar e a chuva e o corpo morto da mãe, a chave. Na sombra da chave as coisas vivem, assim somos nós memória e fome.
Pára, queria eu dizer, e disse ela chorou e a ferrugem dos séculos em mim tu abres-me.
A beleza, disse ele e olhou-me, ses yeux de glace étaient si purs, a beleza, e olhou-me a chuva lá fora e em mim a rosa, sim, pensei, agora.
A beleza do mundo, disse ele, é grito das coisas com fome.
1 comments:
A fome, a fome! :)
Belo texto, aguarda-se a sequela.
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