
Mark Rothko, a pintura
Foi nesse tempo que encontrei os anjos mortos.
Saía das aulas e o caminho era a casa dele e a chuva, livros empilhados no chão as tintas. Saía de tudo, eu, e o caminho era uma coisa a chamar. Senta-te aí, disse ele, estou quase a acabar e eu ficava a ver as telas e o vermelho cada vez mais forte tu pintas o outro lado da luz. Às vezes ele falava e esquecia-se da tinta nas mãos e abria um livro ou uma maçã, às vezes ficava longe. Naquela história, disse ele, naquela história as coisas choram. Lembro-me tanto de o ouvir falar, lembro-me tanto das trevas.
Pára um bocadinho, disse eu e pensei tu nem me sentes. Tens esta casa e esta sombra e passas os dias fechado a pintar e a dormir e a ler há livros a mais aqui. Vamos tomar um café, disse eu, e queria dizer não venhas, não quero estragar a tua luta com a luz e se vieres vai dar ao mesmo, senta-te aí estou quase. Estás quase a descobrir os segredos todos e sim há fendas no mundo e rosas, vozes de negro a cantar. Ensinaste-me tantas coisas, tão pouco tempo desde a primeira vez, desde a noite do cinema e tinhas o casaco que agora está ali caído e disseste coisas sobre coisas tremendas, ensinaste-me a ver. Mas eu sou só mais uma forma das cores, estou aqui como estão aqui a máscara azul e as folhas secas e o teu gato que nunca está e a fotografia do teu pai com o clarinete, tirada em Moscovo e não disseste mais nada dele. Estou aqui porque precisas de uma porta fechada e eu faço-te uma porta fechada. Estou aqui para pintares os anjos.
Que disseste, disse ele, e nos seus olhos estava o resto da luz.
Voltámos do café, lembras-te, e à tua porta estava a Clara. É a Clara, disseste, e pensei ela já foi a porta fechada. Ela sabe o nome das rosas. Entrámos, e a chuva veio connosco, fomos ao café dizia ele e disse a sorrir estávamos com fome.
3 comments:
Enquanto estás algures para oferecer uma porta fechada, quem está a oferecer-te a ti a mesma coisa?
Duvido de que seja possível haver alguém. Não há... simetria. Não pode haver.
Já há algum tempo que não (...) a ler um texto.
Abraço, Hellena
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