Tuesday, March 27, 2007

Meditações da floresta

Amor da floresta, que me ensinou a ligeireza da dança.
Amor da árvore, que me ensinou a presença inteira.
Amor do ramo, que me ensinou a sustentação dos pássaros.
Amor da folha, que me ensinou a elevação dos mundos.
Amor da pedra, que me ensinou a linguagem do deus.

Floresta, em nós se não distinguem o corpo e a alma. Inconstância da luz! Por longo tempo me contive nos caminhos únicos. Raízes na profundeza dos céus, ramagens de desejo puro, domínio das águias chamadas loucura! Em baixo, na cidade do pó, chamaram-me a Peregrina. E percorro-te na noite em busca de outra Noite.

Deixamos para trás o deus dos rebanhos áridos.

Monday, March 26, 2007

O coração e a flecha

O nome do meu blog tem uma história com quatro séculos, e tem uma história que não sabemos como começou.

Em Maio de 1610, Henrique, rei de França pela graça de Deus, foi apunhalado à entrada de Paris por um homem chamado Ravaillac. Disseram alguns que o assassino era apenas um louco; outros espalharam que o rei, na véspera, desprezara um bilhete anónimo a prevenir da conspiração. Constou que a cidade de Cambrai, uns dias antes, fora atravessada de madrugada por um cavaleiro que gritava "matam o rei com facadas no coração". Segredou-se que era bem longo, e bem impiedoso, o braço do rei católico de Espanha. Disse-se muita coisa, e muita coisa aconteceu depois.

E alguns - só alguns - repararam no nome da estalagem para onde os desorientados guardas do rei tinham conduzido o corpo sangrado do seu senhor: au coeur couronné percé d'une flèche.

Ao coração coroado trespassado de uma flecha.

Sim. Para os que sabem ver, tudo se faz sinal. Desde o princípio do mundo há no mundo um coração coroado; desde o princípio dos homens anda connosco uma flecha a trespassar. Mistério do amor, que eleva os corações à coroação do sentido. Mistério do mal, que fere como se soubesse onde acertar.

O amor e o mal. De que outras coisas valeria a pena falar?