Monday, May 28, 2007

Mapas

"A forma sistemática como verificava os dados havia-a tornado conhecida entre os colegas. Mas já mesmo enquanto rapariga sentira a necessidade imperiosa de saber sempre onde se encontrava, o que a levara a escolher ser piloto e, mais tarde, astronauta.

- Só os rapazes é que sabem dizer onde fica o Norte - diziam-lhe as outras crianças com a certeza de uma sabedoria passada - As raparigas só sabem compreender as pessoas.

Teresa não costumava ligar muito às tradições sexistas. No entanto, aquela parecia explicar muita coisa - por exemplo, a sensação que nunca a abandonava que todos os mapas tinham sempre qualquer coisa de errado."

David Brin, Earth [tradução portuguesa de
Lucília Rodrigues para as Publicações Europa-América]

Friday, May 25, 2007

Couronne

A verdade parece a morte.

[joão miguel fernandes jorge]

Thursday, May 24, 2007

Especulação 1

Mesmo os que não temos formação científica nos habituámos à ideia de que as coisas não são divisíveis até ao infinito: há os átomos, e para além deles entramos num mundo fascinante, caótico e - excepto pela matemática - incompreensível.

Mas quando falamos de comportamentos pessoais, ou de acontecimentos da História - o assassinato de Kennedy, as razões da zanga entre X e Y - tendemos a aceitar, ser pensar muito nisso, que o observador atento poderia encontrar a sua explicação definitiva, completa, irrefutável: poderia encontrar uma descrição verdadeira, completa e coerente dos factos.

Não penso que isso seja possível. Aprofundando suficientemente uma história qualquer - a minha, a de Kennedy, a das aparições de Fátima, qualquer uma - chegamos também a uma fronteira semelhante à dos átomos: para além dela, passamos a ter só uma história coerente mas incompleta ou - o que é muito mais interessante - uma história completa mas incoerente.

E não temos, nestes casos, matemática que nos ajude.

Tuesday, May 22, 2007

Ávila

Tenho uma câmara a fazer de alma, um microscópio no lugar do coração. Em mim há só o que os meus olhos sabem: céus cinzentos e um gato, uma chávena de café no Outono, os muros do convento de San José em Ávila. Sou para mim uma imagem minha, coisa múltipla em fuga esboçada a lápis. Na rigorosa sucessão das horas, tufão disperso nos mares do tempo.

Faço-me inteira pelo amor, dissipação da bruma. Consciência marítima das ondas, tão diferente da insurreição da pedra! Faço-me no amor como mar em molhe de Inverno, cada onda anseia a livre condição de chuva, cada onda a bater sabe-se mar. E alargas-te ao receber-me como se fosses o mundo, a complexíssima enraização do mundo.

Microscópio no lugar do coração, sei de ti coisas que o dia não conta. Na tua pele cada marca da pedra em Ávila.

Monday, May 21, 2007

Elle aime. Filter.

Hoje

Sei tão pouco de mim.

Eu

Na mesa ao lado luz sombra e depois olhei os pulsos, a fragmentada solidão das mãos. Na mesa ao lado abri distâncias de mim, sulcos de água num glaciar. Fala-me, pensei, fala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é cedo. Anda um gesto no teu veludo negro, nas tuas sedas tão tristes. Andam palavras em ti que eu quero ter.

Tem cuidado com a água, disse a luz das tuas veias na pele. A noite chama para sermos iguais a ela, dançar o cansaço chamado vida. Não me olhes na mesa ao lado, daqui a pouco hei-de ir e hei-de ser mais uma nas trevas, mais uma luz a dançar. Tem cuidado os sulcos vão-te perder.

Eu saberei onde andas, pensei, se dançares vai-me bastar fechar os olhos, sei.

Não me quero rasgar.

Na noite à volta luz sombra e agora a música em fogo, a insaciável solidão do fogo. Na noite à volta deixo-me arder. Noite, rezei, faz em mim uma noite igual, faz em mim rios de fogo a dançar. Bebo de ti como se bebesse a vida roubada, como se beijasse os pulsos tão leves. Beijo na noite aquela que eu queria ser.

Já não me lembro e toquei o veludo negro, toquei as sedas mas já não sei. Veias de lava na pele, palavras. Rosas soltas de imacular.

Não te quero rasgar.

No corpo ao lado luz sombra e depois viste-me os olhos, a emagrecida solidão dos olhos. No corpo à volta abri o abismo de nós. Cala-me, pensei, cala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é tarde. Agora sei as veias na pele, sei o sabor do teu veludo negro. Sabes o que faz o gelo sangrar.

Friday, May 18, 2007

Dorothée



Sempre fui uma coisa à deriva. E esta é uma das minhas dériveuses preferidas, Dorothée Blanck. Também pus aqui o seu blog.

Sunday, May 13, 2007

Carrasqueira

Fátima é uma coisa que me atrai e que me afasta. Não gosto do sítio, não gosto da imagem da "virgem", não gosto das multidões. Não gosto dos bem-comportadinhos a dar conselhos. Mas também não gosto da zombaria que os tolos lhe fazem. Nunca gostei de troçar.

Atrai-me a história, e não a lenda. Atrai-me a verdade, e não a devoção.

As explicações dos padres não são explicações nenhumas. As explicações dos ateus são um insulto à inteligência. A minha bisavó viu o sol a dançar, e com ela viram milhares de pessoas. Houve pessoas que falaram de um "carro" no céu. Alguns dias antes do primeiro dia, surgiram mensagens estranhas em jornais: "135917", "Stella Matutina". A Senhora não mexia a boca a falar. O inferno, lugar para onde vão os "pobres pecadores" (pobres como?). Ninguém sabe o que se passou em Tuy. A aurora boreal, o "sinal do céu", apareceu poucos dias antes da tomada de poder por Hitler, e afinal a igreja diz que o mal estava na "Rússia". Sem quase se dar por ela, a "imaculada conceição" é substituida pelo "imaculado coração" (e que diferença, para quem saiba ver). Peças soltas do maior puzzle da história.

E continuo a acreditar que é possível encontrar a estratégia do Mal. E que as Plêiades vencerão a Ursa. Dizendo isto, percebo que não tenho como o dizer. Como o explicar. Como entendo a Lúcia (o imenso significado dos nomes dos três pastores, que nunca vi a Igreja reconhecer). Como entendo. Sim, há uma estratégia das Trevas. E daí? Qual é a estratégia de mim?

Friday, May 11, 2007

À aproximação da noite


De todas as coisas humanas, as almas e as palavras foram as primeiras criadas; concederam-lhes os deuses a possibilidade da pedra, semelhante a eles: que a forma nascesse marcada só a ferro e a fogo.

Só foram depois feitos os corpos. Neles - por eles - aprendemos o gesto, a interminável adivinhação do Nome.

Em todo o gesto há um desejo imenso. Em todo o desejo buscamos a Palavra inteira.

Thursday, May 10, 2007

síntese

Ela punha a esperança na loucura.