Na mesa ao lado luz sombra e depois olhei os pulsos, a fragmentada solidão das mãos. Na mesa ao lado abri distâncias de mim, sulcos de água num glaciar. Fala-me, pensei, fala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é cedo. Anda um gesto no teu veludo negro, nas tuas sedas tão tristes. Andam palavras em ti que eu quero ter.
Tem cuidado com a água, disse a luz das tuas veias na pele. A noite chama para sermos iguais a ela, dançar o cansaço chamado vida. Não me olhes na mesa ao lado, daqui a pouco hei-de ir e hei-de ser mais uma nas trevas, mais uma luz a dançar. Tem cuidado os sulcos vão-te perder.
Eu saberei onde andas, pensei, se dançares vai-me bastar fechar os olhos, sei.
Não me quero rasgar.
Na noite à volta luz sombra e agora a música em fogo, a insaciável solidão do fogo. Na noite à volta deixo-me arder. Noite, rezei, faz em mim uma noite igual, faz em mim rios de fogo a dançar. Bebo de ti como se bebesse a vida roubada, como se beijasse os pulsos tão leves. Beijo na noite aquela que eu queria ser.
Já não me lembro e toquei o veludo negro, toquei as sedas mas já não sei. Veias de lava na pele, palavras. Rosas soltas de imacular.
Não te quero rasgar.
No corpo ao lado luz sombra e depois viste-me os olhos, a emagrecida solidão dos olhos. No corpo à volta abri o abismo de nós. Cala-me, pensei, cala-me agora que ninguém vai ver, de qualquer forma é tarde. Agora sei as veias na pele, sei o sabor do teu veludo negro. Sabes o que faz o gelo sangrar.