Monday, October 22, 2007
Fomes, terceira parte

Tu désires selon le désir de l'autre, foi esse o poder das fomes brancas. Entrámos os três e subiu em mim a chuva, do quarto apagado manchas de tinta a crescer. Senta-te aí disse ele e não era eu, nas mãos da Clara a calmaria do mar. Murder ballads, sim.
Queres ver, disse-lhe ele e pensei foi de mim que tomaste as cores do sangue pois e para isso foi preciso que me visses como dezembro a tremer, foi preciso rasgar a aurora. E olhei para ela mas ela não via o vermelho impuro, gosto tanto desse disse eu devagar e queria dizer não sabes? Ele é a presa da fome e tu foste quarto cheio de coisas e tantas coisas em ti talvez a canção de inverno e ele disse-te o que aconteceu em Moscovo? Tão quietas as tuas mãos, a dança.
Sim, disse ela, e eu vi-a com os olhos dele e senti Sim, disse ela e queria dizer lembras-te? e olhava como um lago sem dor e demorou-se nele como se soubesse o lugar das cicatrizes, das marcas. Como se soubesse as palavras mortas.
Ele tremeu talvez e disse qualquer coisa e vai ouvi eu as rosas morrem.
Get down get down little Henry Lee, murmurou a fome.
Não sabes o que fazes pensei e disse coisas sobre o vermelho e a vida enquanto as coisas gritavam dos cantos e os livros aos montes eram demais e cada um dos ferros e das pedras. Frases. Agora sei pensei mas não disse isso agora sei as fendas do mundo sim, vai dizia o homem do clarinete em Moscovo vai saber porque é que parei aqui nesta fotografia rasgada que música toquei antes sem ninguém ouvir que olhar me rasgou ou achavas que não são contas que o meu filho quer ajustar? vai dizia a chaleira de cobre há qualquer coisa em mim que só pode ser entendida no frio de outubro ou? vai dizia o livro azul já te contei o deserto dos gelos e é a tua vez as garras.
Clara.
Foste tu gritei e eles não souberam foste tu que lhe deste a fome dos anjos. Vejo-te agora, calmaria do mar abismo de me não ver, vejo-te agora com os olhos dele e sei porque me quis na noite que eu tive vermelha. E sim em ti corre o segredo como sangue em poemas mortos, nada. O gesto dança nas tuas mãos e disse fala-me como se não soubesse que não era preciso. Que disseste disse ela e queria dizer ele atravessou-te mas vês eu sou opaca.
Foi há tanto tempo o tempo dos anjos mortos, era tão nova e as aulas eram o caminho de casa dela. Não há amor que não seja raspar uma porta fechada. A little pen-knife held in her hand, murmurou o mundo e eu pensei somos o desejo solto dos anjos.
Fui eu disse ela e só eu ouvi, e sim esta noite ensino-te a fome. As suas mãos calmaria do mar, as trevas.
Tuesday, October 9, 2007
Fomes, segunda parte

Mark Rothko, a pintura
Foi nesse tempo que encontrei os anjos mortos.
Saía das aulas e o caminho era a casa dele e a chuva, livros empilhados no chão as tintas. Saía de tudo, eu, e o caminho era uma coisa a chamar. Senta-te aí, disse ele, estou quase a acabar e eu ficava a ver as telas e o vermelho cada vez mais forte tu pintas o outro lado da luz. Às vezes ele falava e esquecia-se da tinta nas mãos e abria um livro ou uma maçã, às vezes ficava longe. Naquela história, disse ele, naquela história as coisas choram. Lembro-me tanto de o ouvir falar, lembro-me tanto das trevas.
Pára um bocadinho, disse eu e pensei tu nem me sentes. Tens esta casa e esta sombra e passas os dias fechado a pintar e a dormir e a ler há livros a mais aqui. Vamos tomar um café, disse eu, e queria dizer não venhas, não quero estragar a tua luta com a luz e se vieres vai dar ao mesmo, senta-te aí estou quase. Estás quase a descobrir os segredos todos e sim há fendas no mundo e rosas, vozes de negro a cantar. Ensinaste-me tantas coisas, tão pouco tempo desde a primeira vez, desde a noite do cinema e tinhas o casaco que agora está ali caído e disseste coisas sobre coisas tremendas, ensinaste-me a ver. Mas eu sou só mais uma forma das cores, estou aqui como estão aqui a máscara azul e as folhas secas e o teu gato que nunca está e a fotografia do teu pai com o clarinete, tirada em Moscovo e não disseste mais nada dele. Estou aqui porque precisas de uma porta fechada e eu faço-te uma porta fechada. Estou aqui para pintares os anjos.
Que disseste, disse ele, e nos seus olhos estava o resto da luz.
Voltámos do café, lembras-te, e à tua porta estava a Clara. É a Clara, disseste, e pensei ela já foi a porta fechada. Ela sabe o nome das rosas. Entrámos, e a chuva veio connosco, fomos ao café dizia ele e disse a sorrir estávamos com fome.
Thursday, October 4, 2007
Fomes, primeira parte

Mark Rothko, a pintura
Nas fendas do mundo há coisas vivas, disse ele, e lá fora era a chuva a um canto o sofá da primeira vez vermelho. Olhei a máscara e a fotografia do homem do clarinete, põe outra vez Cave não me apetece esta agora. Nas fendas, disse eu, nas coisas que não sabemos ver.
Não sei dizer, disse ele, na distância entre as coisas nos intervalos, nunca reparaste como as coisas estão longe, tão longe umas das outras. Pelo menos as coisas velhas, uma rua em pedra uma árvore um candeeiro de latão os livros. Uma sombra à volta que não é sombra e que eu nunca pude pintar. As cores não chegam ou não sou capaz.
Anda cá, disse eu, tenho frio e queria dizer vejo essa sombra nas tuas mãos guardei-a em mim da noite vermelha. E disse as coisas velhas sabem tanto.
Às vezes, disse ele, às vezes até o dia as horas. Não sei o que é, momentos separados como se o tempo não fosse andar. São coisas com fome, sabes, são coisas que esperam qualquer coisa nossa. Às vezes as palavras.
Manderley, disse eu e era comigo, last night I dreamt I went to Manderley again. Last night o tempo do sofá vermelho e sim, à volta das coisas coisas de fome a rondar. Sou a fome de ti, pensei, não era assim antes da noite e deste quarto e das coisas que me disseste caderno preto mãos de dançar. Palavras a tinta na tua pele.
Somos espelhos, dizia ele, espelhos quebrados e às vezes espelhos grandes dourados daqueles onde os vampiros se não sabem mostrar, as velas. À luz da vela as fomes cantam.
A tua sombra, pensei eu, a tua sombra chama as fomes neste quarto vazio cheio de coisas, há fendas no mundo sim e é a tua sombra que as abre, feridas vermelhas como as palavras de que és feito. Olha para isto, livros aos montes pelo chão e pedras e os teus desenhos e casacos pretos compridos e coisas de ferro que trazes de todo o lado. Trouxeste aqui outras antes de mim e não vos vou ver.
Sentes? dizia ele, olha aqui esta chave de ferro, e eu segurei na chave e sentia a ferrugem dos séculos tão áspera tão macias as mãos e olhei e Sentes? dizia ele, agora vê a distância não lhe consegues tocar porque era preciso sentir a porta em que ela esteve e a casa consegues ver? As mãos embrulhadas num xaile negro e não há luz um cão a uivar e a chuva e o corpo morto da mãe, a chave. Na sombra da chave as coisas vivem, assim somos nós memória e fome.
Pára, queria eu dizer, e disse ela chorou e a ferrugem dos séculos em mim tu abres-me.
A beleza, disse ele e olhou-me, ses yeux de glace étaient si purs, a beleza, e olhou-me a chuva lá fora e em mim a rosa, sim, pensei, agora.
A beleza do mundo, disse ele, é grito das coisas com fome.
